A SALVAÇÃO SE DÁ INTEIRAMENTE PELA GRAÇA DE DEUS, PELA FÉ EM CRISTO E MAIS NADA!

 

RESPOSTA PARA RONALDO

 

Enumerar vários versículos sem contexto, pode se configurar pretexto, daí, ficará tão frágil quanto se basear numa argumentação bíblica por exemplo: do Livro “o Grande Conflito” da Hellen Gould White ou das profecias de Michel de Nostradamus.



Vou expor de forma detalhada o CONTEXTO da reunião dos apóstolos em Jerusalém para tratar justamente dessa questão que para ser salvo, o indivíduo tinha de guardar/observar a lei de Moisés. Paulo e seus companheiros enfrentaram o mesmo desafio na assembleia em Jerusalém cerca de vinte anos depois de Pentecostes. Defenderam bravamente a verdade do evangelho e a expansão missionária da Igreja. O acontecimento em questão se deu em três estágios.

 

1. A DISCUSSÃO (AT 15:1-5)

Tudo começou quando alguns mestres judeus legalistas chegaram a Antioquia e ensinaram que, a fim de ser salvos, os gentios deveriam receber a circuncisão e obedecer à Lei de Moisés. Esses homens eram ligados à congregação de Jerusalém, mas não eram autorizados por ela (At 1 5:24). Identificados com os fariseus (At 15:5), esses "falsos irmãos" desejavam privar tanto cristãos judeus quanto gentios da liberdade em Cristo (Gl 2:1­ 10; 5:1 ss).

 

Não causa grande surpresa saber que havia pessoas na igreja de Jerusalém defendendo energicamente a Lei de Moisés sem conhecer a relação entre a Lei e a graça. Eram judeus ensinados a respeitar e a obedecer à Lei de Moisés, e, afinal de contas, as epístolas aos Romanos, Gálatas e Hebreus ainda não haviam sido escritas! Havia um grande grupo de sacerdotes na congregação de Jerusalém (At 6:7), bem com o de pessoas que ainda seguiam algumas das práticas do Antigo Testamento (ver At 21:20­ 26). Era um período de transição, e tempos assim são sempre difíceis.

 

O que esses legalistas faziam e por que eram tão perigosos? Tentavam misturar a Lei e a graça e colocar vinho novo em odres velhos e frágeis (Lc 5:36-39). Costuravam o véu rasgado do santuário (Lc 23:45) e colocavam obstáculos no caminho novo e vivo para Deus aberto por Jesus ao morrer na cruz (Hb 10:19-25). Reconstruíam o muro de separação entre judeus e gentios que Jesus derrubara no Calvário (Ef 2:14-16). Colocavam o jugo pesado do judaísmo sobre os ombros dos gentios (At 1 5:10; Gl 5:1) e pediam que a igreja saísse da luz e fosse para as sombras (Cl 2:16, 17; Hb 10:1). Diziam: "Antes de se tornar um cristão, o gentio precisa tornar-se judeu! Não basta simplesmente crer em Jesus Cristo. Também é preciso obedecer à Lei de Moisés!".

 

Encontramos aqui várias questões importantes, sendo uma delas a obra de Cristo na cruz, conforme a declaração da mensagem do evangelho (1 C o 15:1-8; Hb 10:1­ 18). Deus pronuncia um anátema solene sobre todo o que pregar qualquer outro evangelho que não seja o evangelho da graça de Deus em seu Filho, Jesus Cristo (Gl 1:1-9).

Quando qualquer líder religioso diz: "Você só pode ser salvo se fizer parte de nosso grupo!" ou "Você só pode ser salvo se participar de nossas cerimônias e obedecer às nossas regras!", está acrescentando esses elementos ao evangelho e negando a obra consumada de Jesus Cristo. Paulo escreveu sua Epístola aos Gálatas para deixar claro que A SALVAÇÃO SE DÁ INTEIRAMENTE PELA GRAÇA DE DEUS, PELA FÉ EM CRISTO E MAIS NADA!

 

Outra questão que pode ser observada é a natureza do plano missionário da Igreja. Se esses legalistas (aos quais chamamos "judaizantes") estavam certos, então Paulo e Barnabé estavam redondamente enganados quanto a seu ministério. Além de pregar o evangelho, deveriam estar ensinando aos gentios a viver como bons judeus. Não é de se admirar que Paulo e Barnabé contendessem e discutissem acirradamente com esses falsos mestres (At 15:2,7)! Os cristãos de Antioquia estavam sendo "perturbados" e "transtornados" (At 15:24), e essa mesma confusão e desintegração não tardariam em se espalhar pelas igrejas gentias que Paulo e Barnabé haviam fundado. Era uma declaração de guerra que Paulo e Barnabé não poderiam ignorar.

 

Deus deu uma revelação a Paulo, instruindo-o a levar a questão para os líderes da igreja em Jerusalém (Gl 2:2), decisão que recebeu o apoio da congregação de Antioquia ("eles", em At 1 5:2). A assembleia não foi um "concílio eclesiástico", estritamente falando, mas sim um encontro de líderes que ouviram os vários grupos envolvidos e, em seguida, apresentaram sua decisão. Apesar de a "igreja mãe" em Jerusalém ter grande influência, cada igreja local era autônoma.

 

2. A DEFESA (At 15:6-18)

Ao que parece, essa assembleia estratégica foi constituída de pelo menos quatro reuniões: (1) uma recepção pública para Paulo e seus companheiros (At 15:4); (2) uma reunião particular com Paulo e os principais líderes (Gl 2:2); (3) outra reunião pública na qual os líderes judaizantes apresentaram sua argumentação (At 15:5, 6 e Gl 2:3-5); e (4) um debate público descrito em Atos 15:6ss. Nesse debate, quatro líderes proeminentes apresentaram sua argumentação em favor de manter as portas da graça abertas para os gentios perdidos.

 

Pedro recapitulou o passado (vv. 6-11). Temos a impressão de que Pedro aguardou pacientemente enquanto o "grande debate" se desenrolava, esperando que o Espírito o orientasse. "Responder antes de ouvir é estultícia e vergonha" (Pv 18:13). Pedro lembrou a igreja de quatro ministérios importantes que Deus realizara aos gentios, ministérios estes nos quais havia desempenhado importante papel.

Em primeiro lugar, Deus escolheu Pedro para pregar o evangelho aos gentios (At 15:7). Jesus dera a Pedro as chaves do reino (Mt 16:19), e ele as havia usado para abrir as portas da fé a judeus (At 2), a samaritanos (At 8:14-17) e a gentios (At 10). Os apóstolos e irmãos da Judéia censuraram Pedro por visitar gentios e comer com eles, mas ele apresentou diante deles uma defesa satisfatória (At 11:1-18). Convém observar que Pedro deixou claro que Cornélio e sua casa foram salvos por ouvir a Palavra e crer, não por obedecer à Lei de Moisés.

 

Em segundo lugar, Deus concedeu o Espírito Santo aos gentios para dar testemunho de que haviam, verdadeiramente, nascido de novo (At 15:8). Somente Deus pode ver o coração humano; assim, se essas pessoas não tivessem sido salvas, Deus jamais teria lhes concedido o Espírito (Rm 8:9). Mas não receberam o Espírito por guardar a Lei, mas sim por crer na Palavra de Deus (At 10:43­ 46; ver Gl 3:2). A mensagem de Pedro foi: "todo aquele que nele crê recebe remissão de pecados" (At 10:43) e não: "todo aquele que crê e guarda a Lei de Moisés".

 

Em terceiro lugar, Deus eliminou uma diferença (At 15:9, 11). Durante séculos, Deus determinara uma distinção entre judeus e gentios, e cabia aos líderes religiosos judeus proteger e manter essa distinção (Lv 10:10; Ez 22:26; 44:23). Jesus ensinou que as leis alimentares judaicas não tinham qualquer relação com a santidade interior (Mc 7:1-23), e Pedro reaprendeu essa lição quanto recebeu a visão no terraço em Jope (At 10:1 ss).

 

Desde a obra de Cristo no Calvário, Deus não faz distinção alguma entre judeus e gentios no que se refere ao pecado (Rm 3:9, 22) e à salvação (Rm 10:9-13). A purificação do coração dos pecadores dá-se exclusivamente pela fé em Cristo; a salvação não é concedida pela observância da Lei (At 15:9). Seria de se esperar que Pedro concluísse sua defesa dizendo: "Eles [os gentios] foram salvos como nós, os judeus", mas disse justamente o contrário! "[Nós, os judeus] fomos salvos pela graça do Senhor Jesus, como também aqueles [os gentios] o foram".

 

O quarto ministério de Deus - e a declaração mais enfática de Pedro - foi a remoção do jugo da Lei (At 1 5:10). De fato, a Lei era um jugo que pesava sobre os judeus, mas esse jugo havia sido removido por Jesus Cristo (ver Mt 11:28-30; Gl 5:1 ss; Cl 2:14­ 1 7). Afinal, a Lei havia sido dada a Israel para protegê-lo dos males do mundo gentio e prepará-lo para trazer o Messias ao mundo (Gl 4:1-7). A Lei não tem poder de purificar o coração do pecador (Gl 2:21), de conceder o dom do Espírito Santo (Gl 3:2), nem de dar vida eterna (Gl 3:21). Aquilo que a Lei não era capaz de fazer, Deus realizou por meio do próprio Filho (Rm 8:1-4). Os que creram em Cristo receberam a justificação da Lei de Deus no coração e, por meio do Espírito, obedecem à vontade de Deus. Não são motivados pelo medo, mas pelo amor, pois "o cumprimento da lei é o amor" (Rm 13:8-10).

 

Paulo e Barnabé falaram do presente (v. 12). O testemunho de Pedro causou grande impacto sobre a congregação, pois todos permaneceram calados até que tivesse terminado. Então, Paulo e Barnabé se levantaram e contaram a todos o que Deus havia feito entre os gentios por meio de seu testemunho. Lucas usou apenas uma frase para resumir esse relatório, uma vez que já o havia apresentado em detalhes em Atos 13 e 14. Paulo e Barnabé eram extremamente respeitados pela igreja (ver At 15:25, 26), de modo que seu testemunho tinha grande peso. Sua ênfase foi sobre os milagres para os quais Deus lhes havia dado poder para realizar entre os gentios. Esses milagres eram prova de que Deus operava por meio deles (Mc 16:20; At 1 5:4) e de que eram os mensageiros escolhidos por Deus (Rm 15:18, 19; Hb 2:2-4). "Aquele, pois, que vos concede o Espírito e que opera milagres entre vós, porventura, o faz pelas obras da lei ou pela pregação da fé?" (Gl 3:5). Haviam pregado a graça, não a lei, e Deus havia honrado essa mensagem.

 

Se recapitularmos o relatório da primeira viagem missionária (At 13 - 14), veremos que a ênfase é sobre a obra de Deus, não sobre a fé dos homens. Ver Atos 13:8, 12, 39, 41, 48; 14:1, 22, 23, 27. Convém observar, também, a ênfase sobre a graça (At 13:43; 14:3, 26). Deus abriu aos gentios "a porta da fé", não "a porta da Lei". Prova disso é que a igreja de Antioquia, a congregação que enviou Paulo e Barnabé, foi fundada por pessoas que "crendo, se converteram ao Senhor" (At 11:21) e experimentaram a graça de Deus (At 11:23). Foram salvos da mesma forma como os pecadores o são nos dias de hoje, "pela graça [...] mediante a fé" (Ef 2:8, 9).

 

Tanto Pedro quanto Paulo receberam de Deus visões bastante específicas, instruindo-os a testemunhar aos gentios (At 10:1ss; 22:21). Paulo, porém, foi separado por Deus como o apóstolo aos gentios (Rm 11:13; Gl 2:6-10; Ef 3:1-12). Se os pecadores gentios deviam obedecer à lei de Moisés a fim de ser salvos, por que Deus deu a Paulo o evangelho da graça e o enviou aos gentios? Deus poderia muito bem ter enviado Pedro!

Pedro recapitulou os ministérios de Deus aos gentios no passado, e Paulo e Barnabé relataram a obra de Deus entre os gentios no presente. Tiago foi o último a falar e se concentrou no futuro. Tiago relacionou todas essas coisas ao futuro (w. 13-18). Tiago era irmão de Jesus (Mt 13:55; Gl 1:19) e escreveu a Epístola de Tiago. Ele e seus irmãos só creram em Cristo depois da ressurreição (Jo 7:5; 1 Co 1 5:7; At 1:14). Tiago apresentava forte inclinação para a Lei (há pelo menos dez referências à Lei em sua epístola) e, portanto, desfrutava maior aceitação entre o partido legalista da igreja de Jerusalém.

 

A ideia central do discurso de Tiago é concordância. Em primeiro lugar, afirmou concordar plenamente com Pedro de que Deus estava salvando os gentios pela graça. Os judaizantes devem ter se espantado quando Tiago chamou esses gentios salvos de "um povo para o seu nome [de Deus]", pois, durante séculos, essa designação honrosa coube somente aos judeus (ver Dt 7:6; 14:2;  28:10). Hoje, em sua graça, Deus está chamando um povo, uma Igreja de judeus e gentios. Na verdade, o termo grego para "igreja" (ekklesia) significa "uma assembléia chamada para fora". Mas, se são chamados para fora, sua salvação é inteiramente pela graça, não pela observância da Lei!

 

 Os judaizantes não entendiam como os gentios e os judeus poderiam se relacionar dentro da Igreja ou como a Igreja encaixava-se na promessa de Deus de estabelecer um reino para Israel. O Antigo Testamento declarava tanto a salvação dos gentios (Is 2:2; 11:10), quanto o estabelecimento futuro de um reino glorioso para Israel (Is 11 - 12; 35; 60), mas não explicava a relação entre essas duas promessas. Os legalistas da Igreja zelavam tanto pela glória futura de Israel quanto pela glória passada de Moisés e da Lei. Parecia-lhes que aceitar os gentios como "iguais", no que se referia às questões espirituais, era uma atitude que colocava em risco o futuro de Israel. Hoje, é possível compreender melhor essa verdade, pois Paulo a explicou em Efésios 2 e 3 e Romanos 9 a 11. Os judeus e gentios salvos eram membros do mesmo corpo e "um em Cristo Jesus" (Gl 3:28). A verdade acerca da Igreja, o corpo de Cristo, era um "mistério" (um "segredo santo") oculto nas eras passadas, mas revelado à Igreja pelo Espírito. O plano de Deus para a Igreja com relação a esse mistério não cancela seu grande plano para Israel com relação às profecias. Paulo deixa claro em Romanos 9 a 11 que há um futuro para Israel e que Deus cumprirá as "promessas do reino" que fez a seu povo.

 

Tiago afirmou que os profetas também concordavam com essa conclusão, e, para provar, citou Amós 9:11, 12. É importante observar que não disse que as declarações de Pedro, Paulo e Barnabé eram um cumprimento dessa profecia. Disse apenas que as palavras de Amós concordavam com o testemunho deles. Em uma leitura atenta de Amós 9:8-15, vemos que o profeta revela acontecimentos do fim dos tempos, quando Deus reunirá seu povo, Israel, o levará para sua terra e o abençoará abundantemente. A "espiritualização" dessas promessas com[1]plica seu sentido claro e anula a argumentação de Tiago.

 

Amós também profetizou que a casa ("tabernáculo") caída de Davi seria levantada, e Deus cumpriria sua aliança com Davi, segundo a qual um rei se assentaria em seu trono (ver 2 Sm 7:25-29). Esse futuro rei será, sem dúvida, Jesus Cristo, o Filho de Davi (2 Sm 7:13, 16; Is 9:6, 7; Lc 1:32), que governará sobre Israel durante o reino. Na verdade, o único judeu vivo hoje que pode provar sua genealogia e defender sua realeza é Jesus Cristo!

 

Deus revelou essas verdades a seu povo de maneira gradual, mas seu plano havia sido determinado desde o princípio. Nem a cruz nem a Igreja foram um "plano de emergência" de Deus (At 2:23; 4:27, 28; Ef 1:4). Os judaizantes acreditavam que Israel deveria ser "levantado" em seu reino glorioso antes de os gentios poderem receber a salvação, mas Deus revelou que seria por meio da "queda" de Israel que os gentios encontrariam a salvação (Rm 11:11-16). Na ocasião da assembléia em Jerusalém, a casa e o trono de Davi se encontravam, de fato, caídos; mas, um dia, seriam restaurados, e o reino seria estabelecido.

 

 3. A DECISÃO (AT 15:19-35)

Dirigidos pelo Espírito Santo (At 15:28), os líderes e a igreja toda (At 15:22) tomaram duas decisões: uma de caráter doutrinário acerca da salvação e outra de caráter prático acerca da vida cristã. A decisão doutrinária já foi examinada anteriormente. A igreja concluiu que judeus e gentios eram todos pecadores diante de Deus e que só poderiam ser salvos pela fé em Cristo Jesus. Há somente uma necessidade e somente um evangelho para suprir essa necessidade (Gl 1:6-12). Deus tem somente um plano: chama um povo para seu nome. Israel foi colocado de lado, mas não foi rejeitado (Rm 11:1 ss); quando o plano de Deus para a Igreja se completar, começará a cumprir as promessas do reino aos judeus.

 

Mas toda doutrina deve levar ao dever. Tiago enfatiza esse fato em sua epístola (Tg 2:14-26), e Paulo faz o mesmo em suas cartas. Não basta simplesmente aceitar uma verdade bíblica; devemos aplicá-la pessoalmente à vida diária. Os problemas da igreja não são resolvidos pela sanção de decretos, mas pelas revelações que Deus nos dá em sua Palavra.

 

Tiago aconselhou a igreja a escrever aos cristãos gentios e a compartilhar as decisões da assembléia. Essa carta pedia obediência a duas ordens e uma disposição de concordar com duas concessões. As duas ordens eram que os cristãos se afastassem de toda e qualquer idolatria e imoralidade, pecados predominantes no meio dos gentios (ver 1 C o 8 - 10). As duas concessões eram que se abstivessem prontamente de comer sangue e carne de animais abatidos por estrangulação. As duas ordens não criam qualquer problema em particular, pois a idolatria e a imoralidade sempre foram erradas aos olhos de Deus, tanto para judeus quanto para gentios. Mas e quanto às duas concessões com respeito aos alimentos?

 

É importante lembrar que a igreja primitiva costumava fazer várias refeições comunitárias e praticar a hospitalidade. A maioria das igrejas se reunia em casas, e algumas congregações realizavam "refeições de comunhão" com a Ceia do Senhor (1 C o 11:1 7-34). Essas refeições provavelmente não eram muito diferentes dos almoços e jantares organizados na igreja, nos quais cada um leva um prato. Se os cristãos gentios comessem alimentos que os judeus consideravam "impuros", isso causaria divisão na igreja. Paulo trata desse problema claramente em Romanos 14 e 15.

 

A proibição de comer sangue foi determinada por Deus antes do tempo da Lei (Gn 9:4) e foi repetida por Moisés (Lv 1 7:11-14; Dt 12:23). Se um animal era morto por estrangulação, parte do sangue permanecia no corpo e tornava a carne inapropriada para o consumo pelos judeus. Daí a admoestação de não usar esse tipo de abate. A carne kosher vem de animais puros devidamente abatidos, de modo que o sangue seja totalmente escoado do corpo.

 

É muito bonito ver como essa carta expressava a harmonia amorosa de pessoas que haviam discutido entre si e defendido pontos de vista opostos. Os judeus legalistas abriram mão da idéia de que os gentios deveriam ser circuncidados a fim de ser salvos, e os gentios aceitaram prontamente a mudança em seus hábitos alimentares. Foi um acordo conciliatório feito em amor, que não afetou de maneira alguma a verdade do evangelho. Com o toda pessoa casada e todo pai ou mãe sabem, há certas ocasiões em que é errado fazer concessões, mas também há momentos em que é a coisa mais certa a fazer. Samuel Johnson fez uma colocação sábia quando disse: "A vida não subsiste em sociedade, mas nas concessões mútuas". É difícil amar e viver com quem está sempre certo, que insiste que as coisas sejam feitas a sua maneira.

 

Quais são os resultados práticos dessa decisão? Em primeiro lugar, o fortalecimento da união da igreja, evitando que se dividisse em dois grupos extremos: "Lei" versus "graça". É importante observar que não se trata de concessões doutrinária, pois estas são sempre erradas (Jd 3). Antes se refere ao processo de troca mútua em questões práticas da vida, de modo que as pessoas vivam e trabalhem juntas em amor e em harmonia.

 

Em segundo lugar, essa decisão possibilitou que a igreja apresentasse um testemunho unificado aos judeus incrédulos (At 15:21). Grande parte da igreja ainda se identificava com a sinagoga judaica; é bem provável que, em algumas cidades, a congregação inteira de algumas sinagogas - judeus, gentios prosélitos e gentios "tementes a Deus" - cria em Jesus Cristo. Se os cristãos gentios abusassem de sua liberdade em Cristo e comessem carne contendo sangue, essa atitude ofenderia tanto a judeus salvos como a amigos não salvos que desejavam ganhar para Cristo. Tratava-se, simplesmente, de não ser uma pedra de tropeço para os fracos ou perdidos (Rm 14:13-21).

 

Em terceiro lugar, essa decisão trouxe bênçãos quando a carta foi compartilhada com as várias igrejas e congregações. Paulo e Barnabé, acompanhados de Judas e Silas, levaram as boas-novas a Antioquia, e a igreja regozijou-se e foi encorajada ao saber que não precisaria carregar o jugo pesado da Lei (At 15:30, 31). Em sua segunda viagem missionária, Paulo compartilhou essa carta com as igrejas que fundara na primeira viagem. O resultado foi um fortalecimento da fé dessas igrejas e um aumento no número de fiéis (At 16:5).

 

Temos muito a aprender com essa experiência difícil da Igreja primitiva. Para começar, os problemas e as diferenças são oportunidades de crescimento, mas também podem dar lugar a dissensão e divisão. As igrejas precisam trabalhar juntas e ter tempo de ouvir, amar e aprender. Quantos conflitos e rompimentos dolorosos não poderiam ter sido evitados se alguns do povo de Deus tivessem dado ao Espírito tempo para falar e operar.

 

 A maioria das divisões é causada por "seguidores" e "líderes". Um líder poderoso forma um grupo de seguidores, recusa-se a ceder até nas menores questões e logo provoca uma divisão. Grande parte dos problemas da igreja não decorre de disparidades doutrinárias, mas de diferentes pontos de vista acerca de questões práticas. De que cor devemos pintar a cozinha da igreja? Podemos mudar a seqüência da liturgia? Soube de uma igreja que se dividiu porque não foi possível chegar a um acordo quanto ao lado do púlpito em que deveria colocar o órgão e o piano!

 

Os cristãos precisam aprender a arte de fazer concessões em amor. Precisam organizar suas prioridades a fim de saber quando lutar por algo que é verdadeiramente importante na igreja. É uma decisão pecaminosa seguir um membro influente da igreja que luta para fazer sua opinião prevalecer em alguma questão secundária. Toda congregação precisa de uma dose freqüente do amor descrito em 1 Coríntios 13, a fim de evitar dissensões e divisões.

 

Ao tratar de nossas diferenças, devemos perguntar: "De que maneira nossa decisão afetará o testemunho unido da igreja ao mundo perdido?" Jesus orou pedindo que seu povo fosse unido para que o mundo pudesse crer nele (Jo 17:20, 21). União não é sinônimo de uniformidade, pois a harmonia baseia-se no amor, não na Lei. As igrejas precisam de diversidade em meio à união (Ef 4:1-17), pois essa é a única maneira de o corpo amadurecer e realizar seu trabalho no mundo.

 

Deus abriu uma porta maravilhosa de oportunidade para levarmos o evangelho da graça a um mundo condenado. Mas, mesmo na Igreja de hoje, ainda existem forças que desejam fechar essa porta. Há pessoas que pregam "outro evangelho" que não é o evangelho de Jesus Cristo. Devemos ajudar a manter essa porta aberta e alcançar o maior número possível de almas.

Que Deus em nome do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo possa nos abençoar com esse estudo.

 


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