O SEGREDO DE PAULO AOS GENTIOS

 

A NOVA ALIANÇA É SOMENTE PELA GRAÇA (Gl 4.21-31)

 

Paulo escreve centrado na cruz do Senhor Jesus, mostrando as dificuldades que encontrou para realizar a missão entre os pagãos. Defende vigorosamente a liberdade dos cristãos e apela ao universalismo. Toda a carta revela um grande conflito entre a libertação do paganismo e o surgimento dos judaizantes que desejam continuar a prática da circuncisão e das leis judaicas.



Para os judaizantes, ser cristão significa submeter-se a prática das leis do povo judeu. A circuncisão era a porta de entrada para o processo, que Paulo chama de "jugo da Lei".  Os que procuram impor a circuncisão aos Gálatas e a observância da Lei de Moisés anulam tudo que Jesus fez com sua vida, morte e Ressurreição. Para eles, o importante é o cumprimento da lei. Os defensores da circuncisão e observância da Lei tinham os próprios argumentos: afirmavam que o próprio Jesus foi circuncidado. Os primeiros cristãos também o eram. Para eles a circuncisão e a prática da lei faziam parte da tradição Cristã. Porém, Paulo entende a lei não como um código ético, mas como uma ideologia, um peso.

 

A justiça que vem da fé parte da verificação, que ninguém pode por conta própria e méritos alcançá-la. Os judaizantes afirmam exatamente o oposto. Para eles ser o Povo de Deus é alcançar a salvação, para isso é necessário submeter-se à circuncisão e praticar a Lei de Moisés. Paulo compara o tempo da Lei ao tempo da minoria de idade. Naquela época, era comum confiar a educação das crianças a um pedagogo. Normalmente era um escravo severo encarregado de monitorar, corrigir e punir as crianças. Estes permaneciam sob seus cuidados até atingirem a maioridade. O pedagogo era o dono da vida da criança. Esta era a lei do Povo de Deus antes que se tornasse adulto: muitas regras, preceitos, proibições, punições, um verdadeiro escravidão. É o retrato negativo que Paulo tem da lei do Antigo Testamento. 

 

Agora, porém, os gálatas convertidos voltavam ao legalismo e a uma "segunda infância", levando Paulo a passar mais uma vez pelas "dores de parto". O apóstolo desejava ver Cristo formado dentro deles, assim como nós, que somos pais, ansiamos por ver nossos filhos amadurecerem na vontade de Deus. Uma vez que os judaizantes costumavam apelar para a Lei, Paulo aceita seu desafio e emprega a própria Lei para provar que os cristãos não estão mais sob o jugo do legalismo. Usa a história conhecida de Ismael e Isaque (Gn 16-21 ), extraindo desse relato verdades espirituais acerca da relação do cristão com a Lei de Moisés.

 

De volta às Escrituras, filhos da mulher livre (4,21-31). A história de Agar e Sara (Gn 16,1-16; 21, 8-21) receberam várias interpretações. A oposição entre as duas mães, a escrava e a mulher livre, carregam um contraste entre duas mentalidades: da carne e do espírito, de acordo com as circunstâncias naturais do nascimento. Ismael é o filho da carne, Isaac é o filho das promessas (Rm 4,19), nascido do Espírito, fonte de vida (Rm 1,4; 1Cor 15,45). Desta forma, Isaac representa os cristãos que se tornaram filhos pela ação do Espírito divino (Gl 4,6-7). Logo os cristãos pertencemos à Jerusalém celestial, não voltam à escravidão da lei! Os filhos de Sara, pertencem à Jerusalém celestial.

 

Os acontecimentos descritos são reais, mas Paulo os emprega na forma de alegoria, ou seja, de uma narrativa com significado subjacente mais profundo. Em uma alegoria, as pessoas e seus atos representam um significado oculto, de modo que a narrativa deve ser lida em dois níveis: um literal e outro simbólico. A forma de Paulo usar Gênesis nesta seção não significa que podemos descobrir "significados ocultos" em todos os acontecimentos do Antigo Testamento.

 

Se usarmos essa abordagem em nosso estudo da Bíblia, poderemos encontrar praticamente qualquer significado que desejarmos, e é assim que surgem muitos falsos ensinamentos. O Espírito Santo inspirou Paulo a discernir o significado subjacente dessa história em Gênesis. Devemos sempre interpretar o Antigo Testamento à luz do Novo Testamento, e, quando o Novo Testamento assim o permitir, podemos buscar alguns significados que não se encontram imediatamente visíveis. De outro modo, devemos aceitar as declarações objetivas das Escrituras sem tentar "espiritualizar" tudo.

 

1.OS FATOS HISTÓRICOS (Gl 4:19 -23).

 Talvez a maneira mais fácil de compreender o relato histórico seja recapitular rapidamente as experiências de Abraão registradas em Gênesis 12 a 21. Usando a idade do patriarca como referência, podemos acompanhar os acontecimentos nos quais Paulo baseia sua argumentação em prol da liberdade cristã.

 

75 ANOS DE IDADE - Abraão é chamado por Deus para ir para Canaã; Deus lhe promete muitos descendentes (Gn 12:1-9). Tanto Abraão quanto a esposa, Sara, desejavam ter filhos, mas Sara era estéril. Deus esperava que os dois estivessem com o "corpo amortecido" para poder realizar o milagre de lhes enviar um filho (Rm 4:16-25).

 

85 ANOS DE IDADE - O filho prometido ainda não havia chegado, e Sara ficou impaciente. Sugeriu a Abraão que se casasse com sua serva, Agar, e tentasse ter um filho com ela. Tratava-se de um procedimento legal perante a sociedade, mas que não estava dentro da vontade de Deus. Abraão aceitou a sugestão da esposa e se casou com Agar (Gn 16:1-3).

 

86 ANOS DE IDADE - Agar engravida e Sara fica com ciúmes! A situação doméstica se complica, e Sara manda Agar embora. O Senhor, porém, intervém e ordena a Agar que volte, prometendo cuidar dela e de seu filho. A criança nasce quando Abraão está com 86 anos, e o patriarca lhe dá o nome de Ismael (Gn 16:4-16).

 

99 ANOS DE IDADE - Deus fala a Abraão e lhe promete novamente que terá um filho com Sara; deverá chamar a criança de Isaque. Posteriormente, Deus aparece outra vez e reafirma a promessa também a Sara (ver Gn 17 - 18).

 

100 ANOS DE IDADE - Nasce o filho (Gn 21:1-7), e eles o chamam de Isaque ("riso") conforme ordenado por Deus. No entanto, a chegada de Isaque cria um novo problema no lar: Ismael passa a ter um rival. Durante catorze anos, Ismael foi o filho único e querido de seu pai. Qual será a reação do rapaz à presença de seu rival?

 

103 ANOS DE IDADE - Os hebreus costumavam desmamar as crianças por volta dos 3 anos de idade, uma ocasião importante celebrada com uma grande festa. Durante a festa, Ismael começa a zombar de Isaque (Gn 21:8ss) e a perturbar a paz do lar. O problema tem apenas uma solução, que custará muito caro: Agar e seu filho devem partir. Em obediência à ordem do Senhor e com o coração profundamente entristecido, Abraão manda o filho embora (Gn 21:9-14).

 

Á PRIMEIRA VISTA, o relato parece não passar de uma história de conflitos familiares, mas em nível mais profundo se escondem significados de grande poder espiritual. Abraão, as duas esposas e os dois filhos representam certas realidades espirituais, e seu relacionamento ensina lições importantes.

 

2. AS VERDADES ESPIRITUAIS (G l 4 :24-29).

Agora, Paulo explica o significado por trás desses acontecimentos históricos; talvez a melhor forma de abordá-los, seja classifica-los conforme o quadro abaixo.

 

 

A antiga aliança X A nova aliança

Lei X Graça

Agar, a escrava X Sara, a mulher livre

Ismael, concebido segundo a carne X Isaque, concebido miraculosamente

A Jerusalém terrena cativa X A Jerusalém celestial livre

 

 

Paulo começa com os dois filhos, Ismael e Isaque (Gl 4:22, 23), e explica que ilustram nossos dois nascimentos: o nascimento físico, que nos torna pecadores, e o nascimento espiritual, que nos torna filhos de Deus. Ao refletir sobre isso e ler Gênesis 21:1-12, descobrimos algumas verdades maravilhosas sobre nossa salvação.

 

ISAQUE ILUSTRA O CRISTÃO EM VÁRIOS ASPECTOS ESPECÍFICOS.

 

 NASCEU PELO PODER DE DEUS. Na verdade, Deus esperou deliberadamente vinte e cinco anos antes de dar a Abraão e a Sara o filho que lhes havia prometido. Isaque nasceu "segundo o Espírito" (Gl 4:29), e é evidente que o cristão nasce "do Espírito" (Jo 3:1-7). Isaque veio ao mundo por meio de Abraão (que representa a fé, Gl 3:9) e Sara (que representa a graça); assim, nasceu "pela graça [...] mediante a fé" (Ef 2:8, 9).

 

TROUXE ALEGRIA. Seu nome significa "riso" e, sem dúvida, trouxe grande alegria aos pais. A salvação é uma experiência de alegria, não apenas para aquele que crê, mas também para os que estão a seu redor.

 

CRESCEU E FOI DESMAMADO (Gn 21:8). A salvação é o começo, não o fim. Depois de nascer, é preciso crescer (1 Pe 2:2; 2 Pe 3:18). À medida que a criança cresce, deve ser desmamada; assim também devemos "[desistir] das coisas de menino" (1 Co 13:11). Como é fácil apegar-se aos "brinquedos" do início da vida cristã e deixar de apropriar-se das "ferramentas" do cristianismo maduro. Para a criança, não é uma experiência agradável ser desmamada, mas ela jamais chegará à idade adulta sem que isso aconteça (a esse respeito, ver o SI 131).

 

 FOI PERSEGUIDO (Gn 21:9). Ismael (a carne) causou problemas para Isaque, assim como nossa velha natureza também nos coloca em dificuldades (Paulo trata dessa questão em detalhes em Gl 5:16ss). Ismael só começou a criar problemas em casa depois que Isaque nasceu, assim como a nossa natureza começa a nos perturbar somente quando entra em cena a nova natureza ao crermos em Cristo. Vemos na casa de Abraão alguns dos conflitos básicos que os cristãos de hoje enfrentam:

 

Agar em oposição a Sara = A Lei em oposição à graça

Ismael em oposição a Isaque = A carne em oposição ao Espírito

 

É importante observar que não se pode separar esses quatro fatores. Os judaizantes acreditavam que a Lei tornava o cristão mais espiritual, mas Paulo deixa claro que a Lei apenas desencadeia a oposição da carne, e o que segue é um conflito dentro do cristão (ver Rm 7:19). Não havia lei forte o suficiente para mudar e nem para controlar Ismael, mas Isaque nunca precisou de lei alguma. Alguém disse bem que "a velha natureza não respeita lei alguma, e a nova natureza não precisa de lei alguma".

 

Depois de explicar o significado dos dois filhos, Paulo trata agora das duas esposas, Sara e Agar. Com elas, ilustra o contraste entre a Lei e a graça e prova que o cristão não está debaixo da Lei, mas sim debaixo da liberdade em amor, que vem da graça de Deus. Convém observar, portanto, os fatos sobre Agar que comprovam que a Lei não tem mais poder sobre o cristão.

 

AGAR ERA A SEGUNDA ESPOSA DE ABRAÃO. Deus não começou com Agar; começou com Sara. Em se tratando da maneira de Deus se relacionar com os seres humanos, Deus começou com a graça. No Éden, Deus proveu todo o necessário para Adão e Eva pela graça. Mesmo depois de o casal ter pecado, em sua graça, Deus providenciou vestimentas de peles para se cobrirem (Gn 3:21). Não lhes deu leis para obedecer como forma de redenção; antes, em sua graça, deu-lhes uma promessa na qual poderiam crer: a promessa de um Redentor vitorioso (Gn 3:15).

 

Em seu relacionamento com Israel, Deus agiu primeiro com base na graça, não na Lei. Sua aliança com Abraão (Gn 1 5) foi feita inteiramente pela graça, pois Abraão estava em sono profundo quando esse pacto foi estabelecido. Quando Deus libertou Israel do Egito, também foi somente com base na graça, não na Lei, pois a Lei ainda não havia sido dada ao povo. Assim com o Agar, a segunda esposa de Abraão, a Lei foi "adicionada" (Gl 3:19). Agar teve uma função temporária e, depois, saiu de cena; da mesma forma, a Lei teve uma função específica e, depois, foi colocada de lado (Gl 3:24, 25).

 

AGAR ERA UMA ESCRAVA. Cinco vezes, nesta seção, Agar é chamada de "escrava" (Gl 4:22, 23, 30, 31). Sara era uma mulher livre e, portanto, poderia desfrutar de sua liberdade; Agar, por sua vez, continuou sendo uma serva, mesmo casada com Abraão. Semelhantemente, a Lei foi dada para servir.

 

"Qual, pois, a razão de ser da lei?" (Gl 3:19). Servia como um espelho para revelar os pecados dos homens (Rm 3:20) e como um tutor, para controlar os homens e, por fim, levá-los a Cristo (Gl 3:23-25); mas, em momento algum, a Lei foi criada para exercer o papel de mãe!

 

AGAR NÃO DEVERIA TER DADO À LUZ UM FILHO. O casamento de Abraão com Agar foi fora da vontade de Deus, uma decisão resultante da incredulidade e da impaciência de Abraão e de Sara. Agar tentava fazer o que só Sara poderia realizar, por isso, fracassou. A Lei não pode dar vida (Gl 3:21), nem justiça (Gl 2:21), nem o dom do Espírito (Gl 3:2), nem uma herança espiritual (Gl 3:18). Isaque era o herdeiro de Abraão (Gn 21:10), mas Ismael não participou dessa herança. Os judaizantes tentavam transformar Agar em mãe outra vez, enquanto Paulo sentia dores de parto por seus convertidos para que se tornassem mais semelhantes a Cristo. Não há religião nem legislação que possa dar vida ao pecador. Somente Cristo pode fazer isso por meio do evangelho.

 

AGAR DEU À LUZ UM ESCRAVO. Ismael era "entre os homens, como um jumento selvagem" (Gn 16:12), e mesmo sendo um escravo, ninguém era capaz de controlá-lo, nem mesmo sua mãe. Com o Ismael, a velha natureza (a carne) está em guerra com Deus, e a Lei não tem poder de mudá-la nem de controlá-la. Por natureza, o Espírito e a carne "são opostos entre si" (Gl 5:1 7), e não há atividade religiosa que mude esse quadro. Quem escolhe Agar (a Lei) como mãe viverá em escravidão (Gl 4:8-11, 22-25, 30, 31; 5:1). Mas todo o que escolhe Sara (a graça) como mãe desfrutará a liberdade em Cristo. Deus deseja que seus filhos sejam livres (GI 5:1).

 

AGAR FOI EXPULSA. Foi Sara quem deu a ordem: "Rejeita essa escrava e seu filho" (Gn 21:9, 10), e Deus aprovou-a (Gn 21:12). Ismael havia passado pelo menos dezessete anos em casa, mas sua estadia não foi permanente; a certa altura, precisou ser mandado embora. Não havia espaço naquele lar para Sara e Isaque e também para Agar e Ismael; uma das mães e seu filho teriam de partir.

 

É impossível a Lei e a graça, a carne e o Espírito entrarem em acordo e conviverem. Deus não pediu a Agar e a Ismael que voltassem de vez em quando para fazer uma visita; foi um rompimento permanente. Os judaizantes do tempo de Paulo - e de nossos dias - tentam conciliar Sara com Agar e Isaque com Ismael, uma conciliação contrária à Palavra de Deus. É impossível misturar a Lei com a graça, a fé com as obras e a justificação que Deus concede com a tentativa humana de merecer sua justificação.

 

AGAR NÃO SE CASOU NOVAMENTE. Deus não deu a Lei a nenhuma outra nação ou povo, nem a sua Igreja. Ao impor a Lei sobre os cristãos da Galácia, os judaizantes opunham-se ao plano de Deus. No tempo de Paulo, a nação de Israel encontrava-se debaixo da escravidão da Lei, enquanto a Igreja desfrutava de liberdade sob o governo benevolente da "Jerusalém lá de cima" (GI 4:26). Os judaizantes desejavam "casar" o monte Sinai com o monte Sião celestial (Hb 12:22); tal união seria uma negação do que Jesus havia feito no Calvário (Gl 2:21). Agar não deve se casar novamente.

 

Do ponto de vista humano, pode parecer cruel que Deus tenha ordenado a Abraão mandar embora Ismael, o filho que Abraão tanto amava. Mas essa era a única solução para o problema, pois um homem "selvagem" não poderia conviver com o filho da promessa. Em sentido mais profundo, porém, podemos pensar no que custou a Deus enviar seu Filho para tomar sobre si a maldição da Lei a fim de nos libertar. Por causa do coração partido de Abraão, Isaque pode ser livre; porque Deus deu seu Filho, podemos ser livres em Cristo.

 

3. AS BÊNÇÃOS PRÁTICAS (GL 4:30,31) Como Isaque, nós, cristãos, somos filhos da promessa pela graça. A aliança da graça, retratada em Sara, é nossa mãe espiritual. A Lei e a velha natureza (Agar e Ismael) desejam nos perseguir e colocar sob o jugo da escravidão. Como resolver esse problema?

 

PODEMOS TENTAR MUDÁ-LAS. Trata-se de uma tentativa condenada ao fracasso, pois é impossível mudar tanto a Lei como a velha natureza. "O que é nascido da carne é carne" (Jo 3:6), e podemos acrescentar que ela sempre será carne. Deus não tentou mudar Ismael e Agar, quer pela força quer pela instrução. Assim também não podemos mudar a velha natureza e a Lei.

 

PODEMOS TENTAR FAZER UM ACORDO COM ELAS. Essa abordagem não funcionou na casa de Abraão e também não funcionará em nossa vida. Os gálatas tentaram fazer um acordo desse tipo, mas esse desejo os conduzia gradualmente à escravidão. Os falsos mestres de hoje nos dizem: "Não abandone Cristo; antes, aprofunde-se em sua vida cristã praticando a Lei juntamente com sua fé em Cristo". Convide Agar e Ismael a voltarem para casa. Mas esse caminho conduz à servidão: "Como estais voltando, outra vez, aos rudimentos fracos e pobres, aos quais, de novo, quereis ainda escravizar-vos?" (Gl 4:9).

 

PODEMOS EXPULSÁ-LAS. É isso o que devemos fazer. Primeiro, Paulo aplica esse princípio à nação de Israel (Gl 4:25-27); em seguida, o aplica aos cristãos como indivíduos. A nação de Israel estivera sob a servidão da Lei, mas esta havia sido uma medida temporária, com o objetivo de preparar o povo para a vinda de Cristo. Agora que Cristo havia vindo, a Lei precisava ser rejeitada. Assim como Isaque, Jesus Cristo foi um filho da promessa, nascido pelo poder miraculoso de Deus.

Paulo cita Isaías 54:1, aplicando suas palavras a Sara, que era estéril antes do nascimento de Isaque, e também à Igreja (Gl 4:27). Vejamos os contrastes.

 

 

Ismael X A Igreja

Jerusalém Terrena X Jerusalém Celestial

Escravidão X Liberdade

Legalismo estéril X Graça Prolífica

 

 

Sara havia sido estéril e, em sua tentativa de ser prolífica, arranjara para que Abraão se casasse com Agar. Sua tentativa fracassou e só trouxe problemas. A Lei não pode dar vida nem fertilidade; o legalismo é estéril. Ao voltar para a servidão, a Igreja primitiva estaria se condenando à esterilidade e desobedecendo à Palavra de Deus. Uma vez que se manteve firme na graça, a Igreja mostrou-se prolífica e se propagou por todo o mundo.

 

No entanto, igrejas e cristãos individuais podem cometer o mesmo erro que os gálatas: podem deixar de expulsar Agar e Ismael. Um dos maiores problemas entre os cristãos de hoje é o legalismo. Devemos lembrar que legalismo não significa determinar padrões espirituais; significa idolatrar esses padrões e pensar que somos espirituais porque lhes obedecemos. Também significa julgar outros cristãos com base nisso. Alguém pode deixar de fumar, beber e frequentar casas de espetáculos, por exemplo, e ainda assim não ser espiritual. Os fariseus viviam de acordo com padrões elevados, e ainda assim crucificaram Jesus.

 

 A velha natureza ama o legalismo, pois ele dá à antiga natureza uma oportunidade de mostrar seu "lado bom". Não era muito difícil para Ismael deixar de fazer certas coisas erradas ou de realizar certos atos religiosos, desde que continuasse sendo Ismael. Durante dezessete anos, Ismael não causou problema algum em casa; então, quando Isaque entrou em cena, começaram os conflitos. O legalismo alimenta Ismael. O cristão que afirma ser espiritual por causa do que deixa de fazer está apenas enganando a si mesmo. É preciso mais do que negações para construir uma vida espiritual positiva e frutuosa.

 

Sem dúvida, os judaizantes eram homens carismáticos. Possuíam credenciais de autoridades religiosas (2 Co 3:1), apresentavam padrões elevados e tinham grande cuidado com o que comiam e bebiam. Realizavam um trabalho bem-sucedido de granjear convertidos e de divulgar suas realizações (Gl 4:17, 18; 6:12-14). Tinham regras e parâmetros que abrangiam todas as áreas da vida; com isso, seus seguidores podiam identificar com facilidade quem era "espiritual" e quem não era. No entanto, os judaizantes conduziam o povo à escravidão e derrota, não à liberdade e vitória, e seus seguidores não conseguiam distinguir entre uma coisa e outra.

 

Nos últimos capítulos de sua carta, Paulo chama a atenção para a maior tragédia do legalismo: ele dá oportunidade para a carne trabalhar. A velha natureza não pode ser controlada pela Lei; mais cedo ou mais tarde, acaba aparecendo - e, quando isso acontece, é melhor sair de perto! Assim, é fácil explicar por que grupos religiosos legalistas muitas vezes são repletos de conflitos e divisões ("vos mordeis e devorais uns aos outros"; G l 5:15) e, com frequência, sofrem dos pecados hediondos da carne (Gl 5:19ss). Apesar de toda a Igreja ter sua parcela de problemas desse tipo, eles se mostram especialmente proeminentes em ambientes legalistas. Quando convidamos Agar e Ismael para viver com Sara e Isaque, estamos pedindo problemas.

 

Graças a Deus, o cristão foi liberto da maldição e do controle da Lei. "Lança fora a escrava e seu filho." Trata-se de um passo que pode ser extremamente doloroso para nós, como foi para Abraão; mas precisa ser dado. A tentativa de combinar Lei e graça é uma missão impossível. Serve apenas para criar uma vida cristã frustrada e estéril. Mas, ao caminhar pela graça, mediante a fé, somos conduzidos a uma vida cristã livre e plena.

 

Qual é o segredo? O Espírito Santo. E é esse segredo que Paulo compartilha nos últimos capítulos "práticos" de sua carta. Enquanto isso, devemos ter cuidado para não permitir que Ismael e Agar se infiltrem em nossa vida outra vez. Se isso acontecer, devemos LANÇÁ-LOS FORA.

 

Que Deus abençoe a sua vida com esse estudo em nome do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.

 


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